Neste tópico, apresento vídeos sobre filosofia que descrevem uma escola filosófica de que eu gosto muito, o existencialismo ateu. De certa forma, apesar de escrever de uma perspectiva teísta, em contraposição à ateísta, ou posso caracterizar mais precisamente a perspectiva do autor deste artigo como cristã bíblica, segundo a definição de Colin Chapman em O Cristianismo no Banco dos Réus, julgo muito importante não abrir mão de entender como a razão penetra e equaciona os mais intrincados dilemas da existência humana pelas mãos dos que pensam a existência a partir da própria existência.
Estes vídeos apresentam aulas do filósofo Franklin Leopoldo e Silva, da USP, que irão iniciar o leitor de Nerdilândia em dois temas fascinantes, a saber, Fenomenologia e Existencialismo e O Existencialismo de Jean-Paul Sartre. Escolhi começar por esses vídeos uma vez que são temas que poderão ser considerados muito áridos e difíceis para quem não teve iniciação na Filosofia. Franklin procura tornar a terminologia difícil dessa escola filosófica em algo compreensível para quem jamais teve acesso a livros que ensinam filosofia ou, o que seria melhor e um caminho mais excelente, aos livros dos filósofos, que reconheço seria o ideal. Sempre aconselho a quem quer saber qualquer assunto em filosofia, por exemplo, recorrer às obras dos filósofos. É claro que, às vezes, isto demanda muito do leitor, pois, na maioria das vezes, envolve o conhecimento de outra língua.
Procuraremos nos concentrar no existencialismo ateu de Jean-Paul Sartre (21 de junho de 1905 a 15 de abril de 1980), pois ele nos oferece sua própria construção do existencialismo ateu, num diálogo com os grandes mestres alemães Husserl, Heidegger e Hegel, com os quais interage ora concordando, ora discordando, quase sempre modificando o que eles ensinaram e sempre seguindo seu próprio caminho, seu próprio programa filosófico, construído sobre a base dos pressupostos ontológicos de sua filosofia existencial. Uma característica que deve fascinar um estudante interessado de filosofia será o modo peculiar como esses filósofos usam seus idiomas para transmitir seus pensamentos filosóficos, de modo que se vêem forçados a criar novos termos e expressões que entram na língua como neologismos e moldam literariamente seus escritos com construções geralmente fora do convencional.
Exatamente por isso que eu disse que o estudante que quer beber nas fontes primárias não terá consigo apenas o desafio de aprender o alemão, no caso de querer ler as obras de Husserl, Heidegger e Hegel na língua original, mas o alemão filosófico desses filósofos. O mesmo se pode dizer do desafio de ler Sartre no francês original, pois o estudante não apenas terá de saber francês, mas se defrontará com o francês literário e filosófico sartreano, que muitas vezes terá termos e expressões que se espelham nos termos e expressões de Husserl, Heidegger e Hegel, como também apresentará termos e expressões franceses originais e peculiares cunhados pelo próprio Sartre para a construção de seu imenso sistema filosófico.
A esta altura, podemos respirar um pouco aliviados porque contamos com traduções para o português de boa parte dessas obras, feitas por profundos conhecedores não só das línguas em que foram escritas as obras desses filósofos, mas também conhecedores profundos de seus pensamentos e programas filosóficos. Temos hoje como acessar quase todas as obras desses filósofos em nossa própria língua. Contudo, para efeito de aprofundamento, jamais poderemos abrir mãos dos manuais de hermenêutica e de exegese desses autores, a fim de podermos compreendê-los corretamente.
Portanto, de um modo bem simples, estes vídeos abrem caminho apresentando uma visão sistemática da Fenomenologia e do Existencialismo e do Existencialismo de Jean-Paul Sartre. Este é o existencialismo ateu, do qual Sartre foi um dos mais coerentes e expressivos representante. Houve uma evolução em seu pensamento, é claro, porque ele, como declarou, pensava enquanto escrevia. Se ele pensava enquanto escrevia, pensava também enquanto lia, enquanto falava, enquanto pensava, enquanto vivia, visto que a trajetória e o contexto vivencial em que escreveu seus livros exerceram toda uma influência em seu pensamento que, forçosamente, se refletiu em suas sucessivas obras. Deste modo, a recuperação do Sitz im Leben (o lugar vivencial) dos escritos sartreanos é fundamental para entender corretamente o que ele quis dizer em seus livros.
Este artigo trata de Fenomenologia e do Existencialismo de Jean-Paul Sartre. Uma boa iniciação para a construção de nossas discussões posteriores. Você irá aprender que o primeiro axioma ontológico do Existencialismo é que a existência precede a essência. Disto então decorre, na forma de um teorema ou corolário deste princípio, que o homem é um projeto de si mesmo e é um ser em construção.
O existencialismo sartreano afirma que o homem nasce livre e responsável, e que cada momento é definido por suas ações. Ele distingue entre "ser-para-si" (que seria o homem enquanto ser consciente de sua existência e sua liberdade), "ser-em-si" (seres que designamos como animais, natureza, seriam os objetos não conscientes de si mesmos) e "ser-para-os-outros" (seria o homem consciente que se define em relação aos outros). Qual a proposta do existencialismo ateu que a faz atrativa na sua relação de ser-para-os-outros? Parece que muitos que se dizem ateus precisam mesmo é de um curso, no mínimo, de filosofia, a fim de que o seu ser-para-os-outros não se torne um mero e hediondo ser-em-si, mas um ser-para-si que não castre as individualidades dos outros seres-para-si a fim de que possa conseguir autoafirmação. Isto vai contra o próprio sentido existencialista de liberdade.
Aqui você também aprenderá que, para Sartre, o ser-para-si é superior ao ser-em-si e que, ao autoprojetar-se, o ser-para-si se permite sugerir seu projeto individual de construção para os outros seres-para-si, de modo que esta construção se faz sempre com base no e visando ao bem, e não ao mal, dos outros seres-para-si. Portanto, o ser-para-outro, em vez de ser a construção de um projeto arbitrário e irresponsável, torna-se no mais responsável atributo do ser-para-si, a promoção de um projeto existencial que se foque no bem-estar dos outros seres-para-si. Se o Em-si é inferior ao Para-si e o Para-si autoprojeta-se responsavelmente com vistas não apenas ao seu próprio bem-estar, mas no bem estar de todos os demais Para-si, então, diferentemente do que se poderia supor, o existencialismo é um humanismo, pois se concentra no Para-si e em todos os demais Para-outros.
Deste modo, ao engajar-se na construção de seu projeto existencial, o Para-si tem uma responsabilidade muito maior do que ele poderia imaginar, pois esse projeto abarca a humanidade em sua totalidade! Daí, reafirmamos, o existencialismo ser um humanismo, como bem defendeu Sartre. Agora, quais as implicações disso para a vida prática e quais os dilemas que o existencialismo, seja o ateu, seja o cristão, enfrentam? Que cosmovisões surgem a partir do assumir o prmeiro axioma do existencialismo, de que a existência precede a essência? Como a cosmovisão cristã, cujo primeiro axioma é que a essência precede a existência, pode conciliar-se sem contradição dentro do arcabouço do sistema filosófico existencialista cristão?
Ficam aí estas questões para reflexão. Isto nos sugere a escrita de outros artigos em que tais questões sejam respondidas.
Tenho de destacar, para seu grande mérito, que Sartre era um pensador desconcertante às vezes, haja vista que ele, como sempre asseverou, tinha a capacidade de pensar contra ele mesmo e se desafiar. De certa forma, ele fazia isto porque, praticamente, todos os que o rodeavam com mais proximidade o ouviam mais como discípulos do que como pares, e isto, por certo, geralmente tinha de fazer Sartre pensar contra Sartre.
No final de sua jornada filosófica, apareceu em sua vida um secretário contratado por conta da cegueira que o atingiu em 1973 e que marcou seus últimos anos de vida, até 15 de abril de 1980, que realmente começou a desafiar Sartre. Embora muito jovem, Benny Lévy (Pierre Victor) exerceu um papel crucial nessa fase da vida de Sartre, com destaque as últimas entrevistas de Sartre feitas por Lévy, em que ele admite, por exemplo, ter sido influenciado pelo filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, o que foi, para os sartreanos devotos, um verdadeiro escândalo. Porém, era Sartre pensando contra Sartre. Ele admite nas entrevistas que não gostava de Kierkegaard, pois o mesmo era filósofo existencialista cristão, mas admite que importou algumas categorias filosóficas de Kierkegaard, como o termo desespero, usando-o na acepção kierkegaadiana.
Mais surpreendente ainda foi a ênfase na categoria "esperança" em suas últimas reflexões filosóficas, ainda que admita que o desespero de que fala sobejamente em O Ser e o Nada, e previamente em A Náusea, não deve ser entendido como o antônimo de esperança. É que, ele assevera, termos como desespero e angústia estavam na moda e, então, ele os incluiu em seu programa filosófico apenas como um mero modismo julgando que, se há muitas pessoas falando sobre isto, tais coisas podea representar algo-para-elas. Sartre confessa que jamais soube por si próprio o que desespero e angústia (Angst) viessem representar em sua própria experiência pessoal, razão por quê teve de importar esses termos de Kierkegaard e Heidegger, respectivamente. Só esta franca admissão já foi motivo de escândalo para os amigos da velha guarda.
O mito do perfeccionismo e da originalidade absoluta de Sartre na cabeça dos sartreanos devotos de Les Tempes Modernes tinha razão para estremecer e sentir-se arranhado, porém um pouco menos do que quando ele confessa, ao admitir francamente seus erros cometidos ao longo de sua já longa trajetória, como o da participação no Partido Comunista que, ele mesmo admite, o iludiu pelo fato de chamar-se o Partido dos Trabalhadores (PT). Ele explica esse erro alegando que o intelectual, como qualquer pessoa, precisa de algo em que se agarrar, então, como muitas outras pessoas, ele cometeu esse grande erro, induzido pela falsa conotação emprestada a esse partido que se mostrou compromissado com o seu próprio programa e não tinha espaço para ser contestado e desafiado, muito menos na falsidade a que se propunha de ser um Partido dos Trabalhadores (PT). Em tempo, Sartre abandonou o falso PC (PT) e o marxismo e prosseguiu seu caminho. Mais um escândalo para os sartreanos, Sartre admitindo que errou muitas vezes. Segundo Sartre entendia a história, o progresso é alcançado num processo que envolve falhas e mais falhas. Procurando decifrar essas falhas e corrigi-las na medida do possível constitui o progresso na concepção sartreana da história. Assim, admitindo-se falível como qualquer outro ser humano, esse pensador jamais procurou nutrir na cabeças das pessoas o mito da perfeição, principalmente na cabeça dos sartreanos que o haviam atestado como morto e congelado em um ponto de sua história, quando se tornara cego em 1973.
Por fim, o Sartre das entrevistas de 1980 e dos escritos desses seus últimos sete anos, deixa claro que construíra um sistema filosófico inacabado, como não poderia ser diferente. Ele mesmo demonstra nessas suas últimas entrevistas, que sua filosofia deveria ser um constante vir-a-ser, vir-a-ser esse que não se consumou, e quiçá jamais se consumaria ainda que ele continuasse escrevendo. O devir, o vir-a-ser que naturalmente deveria ser esperado como marca de seu sistema filosófico não foi fossilizado, por exemplo, em O Ser e o Nada e nem na Crítica da Razão Dialética, muito menos na tentativa de preservação do Sartre estático, ideal e final que foi apresentado postumamente por Simone de Beauvoir em Adieux: Um Adeus a Sartre. Nenhum sartreano, na ocasião da publicação das entrevistas de 1980, Esperança Agora, queria admitir que, nelas, Sartre realmente pensava contra Sartre, trocando, finalmente, o desespero pela esperança, num exemplo a ser seguido por todos nós quando assentamos as bases essenciais para a compreensão de nossa própria existência neste mundo e no estabelecimento de nosso próprio, pessoal e intransferível projeto de vida.
O mito do perfeccionismo e da originalidade absoluta de Sartre na cabeça dos sartreanos devotos de Les Tempes Modernes tinha razão para estremecer e sentir-se arranhado, porém um pouco menos do que quando ele confessa, ao admitir francamente seus erros cometidos ao longo de sua já longa trajetória, como o da participação no Partido Comunista que, ele mesmo admite, o iludiu pelo fato de chamar-se o Partido dos Trabalhadores (PT). Ele explica esse erro alegando que o intelectual, como qualquer pessoa, precisa de algo em que se agarrar, então, como muitas outras pessoas, ele cometeu esse grande erro, induzido pela falsa conotação emprestada a esse partido que se mostrou compromissado com o seu próprio programa e não tinha espaço para ser contestado e desafiado, muito menos na falsidade a que se propunha de ser um Partido dos Trabalhadores (PT). Em tempo, Sartre abandonou o falso PC (PT) e o marxismo e prosseguiu seu caminho. Mais um escândalo para os sartreanos, Sartre admitindo que errou muitas vezes. Segundo Sartre entendia a história, o progresso é alcançado num processo que envolve falhas e mais falhas. Procurando decifrar essas falhas e corrigi-las na medida do possível constitui o progresso na concepção sartreana da história. Assim, admitindo-se falível como qualquer outro ser humano, esse pensador jamais procurou nutrir na cabeças das pessoas o mito da perfeição, principalmente na cabeça dos sartreanos que o haviam atestado como morto e congelado em um ponto de sua história, quando se tornara cego em 1973.
Por fim, o Sartre das entrevistas de 1980 e dos escritos desses seus últimos sete anos, deixa claro que construíra um sistema filosófico inacabado, como não poderia ser diferente. Ele mesmo demonstra nessas suas últimas entrevistas, que sua filosofia deveria ser um constante vir-a-ser, vir-a-ser esse que não se consumou, e quiçá jamais se consumaria ainda que ele continuasse escrevendo. O devir, o vir-a-ser que naturalmente deveria ser esperado como marca de seu sistema filosófico não foi fossilizado, por exemplo, em O Ser e o Nada e nem na Crítica da Razão Dialética, muito menos na tentativa de preservação do Sartre estático, ideal e final que foi apresentado postumamente por Simone de Beauvoir em Adieux: Um Adeus a Sartre. Nenhum sartreano, na ocasião da publicação das entrevistas de 1980, Esperança Agora, queria admitir que, nelas, Sartre realmente pensava contra Sartre, trocando, finalmente, o desespero pela esperança, num exemplo a ser seguido por todos nós quando assentamos as bases essenciais para a compreensão de nossa própria existência neste mundo e no estabelecimento de nosso próprio, pessoal e intransferível projeto de vida.
Vamos aos vídeos e voltamos ao tema mais tarde em outros posts.
FENOMENOLOGIA E EXISTENCIALISMO
Franklin Leopoldo e Silva
A FILOSOFIA EXISTENCIALISTA DE SARTRE
Franklin Leopoldo e Silva
Forte abraço e desfrute.
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