quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Gênio Coletivo


O GÊNIO COLETIVO

por Isabela Rocha e Silva

Já acabou a era dos heróis solitários da ciência. A investigação se tornou um trabalho de equipe, feito em grandes centros de pesquisa.

Se você está se perguntando onde está o Isaac Newton da nossa época, é melhor desistir. O estereótipo do gênio solitário, fechado num gabinete, está a anos-luz da realidade dos cientistas de hoje. Os grandes criadores já não trabalham sozinhos. O conhecimento se fracionou a um tal ponto que as novas descobertas só são possíveis como resultado de um mutirão de cérebros brilhantes, cada qual dono de uma parcela ultra-especializada do saber. Curiosamente, a nossa época ressuscitou a noção de inteligência coletiva que existia na Grécia antiga. A idéia de reunir cabeças privilegiadas em centros de excelência foi de uma das melhores cabeças da Antiguidade, Pitágoras, o pai da Matemática. No século VI antes de Cristo, Pitágoras fundou sua academia em Crotona, colônia grega no sul da Itália. Lá se estudava desde Aritmética e Geometria até Astronomia. A iniciativa de Pitágoras estabeleceu o modelo que seria seguido no século seguinte pela famosa Academia de Atenas. Hoje, a produção científica se desenvolve principalmente em centros universitários de pesquisas (veja quadro à direita). No Brasil, Ciência é sinônimo de pós-graduação. A nata dos pesquisadores está concentrada nos 23 programas de mestrado e doutorado que obtiveram a nota máxima (7) na avaliação da Capes, o órgão do governo federal que monitora o ensino superior. Conheça alguns deles entre as páginas 52 e 55.

As escolas que mais brilham

Para construir a bomba atômica, o governo dos Estados Unidos reuniu, durante a Segunda Guerra Mundial, os melhores cérebros disponíveis no campo da Física em Los Alamos. Lá estavam, entre outros, o italiano Enrico Fermi, o dinamarquês Niels Bohr e os norte-americanos Richard Feynman e Robert Oppenheimer. A partir daí, o conhecimento científico se vinculou, mais do que nunca, aos centros do poder e do dinheiro. Acabou-se a era do gênio individual. Os grandes institutos de pesquisa se tornaram a meca para onde se voltam os olhares do mundo inteiro, sempre que o assunto é Ciência. Você vai conhecer agora um pouco sobre três dos mais importantes deles: os institutos de tecnologia da Califórnia (Caltech) e de Massachusetts (MIT), norte-americanos, e o Laboratório Cavendish, inglês.

Poucos e bons

Com apenas 1 800 alunos (mais da metade deles em pós-graduação), o Instituto de Tecnologia da Califórnia, em Pasadena, EUA, é uma universidade pequena e altamente seletiva, com ênfase na pesquisa. Entre os seus 27 nobéis estão o físico Richard Feynman (perfil na página 36), o bioquímico Linus Pauling (perfil na página 28) e o biólogo David Baltimore, diretor do instituto e descobridor da enzima transcriptase reversa, essencial para a reprodução do vírus da Aids. Administra, em conjunto com a Nasa, o Laboratório de Propulsão a Jato, que lançou em 1958 o Explorer I, primeiro satélite norte-americano, e atualmente opera a nave Pathfinder, que realiza pesquisas em Marte.

Fábrica de ciência

Tudo no Instituto de Tecnologia de Massachusetts é impressionante. Instalado no município de Cambridge, na costa leste dos EUA, o campus abriga 61 laboratórios e mais de 12 000 pessoas, entre alunos, professores e pesquisadores. As proezas do MIT incluem o desenvolvimento do radar, a pele artificial (usada no tratamento de vítimas de queimaduras), a confirmação da existência dos quarks (as menores partículas do átomo), a descoberta do primeiro oncogene humano (gene envolvido no surgimento do câncer) e a criação da Internet, junto com outras instituições. Entre os 28 cientistas ligados ao MIT premiados com o Nobel estão o físico Steven Weinberg (1979), o matemático John Nash (1994) e o economista Paul Samuelson (1970).

Tradição britânica

Instalado na aristocrática Universidade de Cambridge, na Inglaterra, o Laboratório Cavendish é o berço onde nasceu e se desenvolveu a Física Atômica. Um dos primeiros diretores, John Joseph Thomson (1856-1940), descobriu o elétron. Seu sucessor Ernest Rutherford (1871-1937) descobriu o núcleo atômico. Foi lá também que o físico James Chadwick (1891-1974) identificou o nêutron. Cavendish foi também o cenário, em 1953, da descoberta do DNA (ácido desoxirribonucléico), a molécula que contém a herança genética dos seres vivos, pelo norte-americano James Watson e pelo inglês Francis Crick. A lista dos seus pesquisadores premiados com o Nobel tem 28 nomes.

Matemática nota 10

Quem tem a expectativa de encontrar um ninho de nerds no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, vai ficar surpreso. Primeiro, com sua bela sede suspensa entre escadas, em meio à vegetação exuberante do Jardim Botânico. Depois, com o alto nível de sua equipe de 32 pesquisadores, todos com doutorado, e o grande prestígio no exterior, como o mais importante centro latino-americano de pós-graduação em Matemática. O IMPA, fundado em 1952, é a primeira instituição acadêmica brasileira criada especificamente para atividades de pesquisa avançada e formação de cientistas. Já formou 160 doutores e 400 mestres e amealhou uma invejável coleção de prêmios internacionais – além de possuir a melhor biblioteca de Matemática na América Latina.

Com todo o peso da tradição, o IMPA respira juventude, a começar pelos seus corredores e pátios internos, com estudantes que parecem saídos da Praia do Arpoador. O instituto chama atenção, no meio acadêmico, por conceder bolsas de mestrado e até de doutorado a alunos extremamente jovens. Meninos e meninas a partir dos 14 de idade já podem conseguir bolsas no Impa.

“O talento matemático é inato e se revela cedo, já que não requer muita vivência e sim raciocínio lógico”, disse à SUPER o diretor-adjunto, César Camacho. “O importante, para um pesquisador nessa área, é a capacidade de abstrair os dados concretos do mundo físico para criar modelos matemáticos.” Não são raros os casos, no IMPA, de títulos de doutor concedidos aos 22 anos. Uma prova de que a aposta na precocidade dá resultados é o carioca Carlos Gustavo Tamm de Araújo Moreira, de 25 anos, um dos mais jovens pesquisadores na instituição. Gugu, como é conhecido, ingressou no IMPA com apenas 14 anos, no curso de verão oferecido aos melhores alunos de matemática no país inteiro, e não parou mais de fazer contas. “Ser cientista não faz ninguém ficar rico, mas dá uma satisfação intelectual e uma independência profissional muito grande, além de ajudar a humanidade a se desenvolver”, orgulha-se Gugu. Além de matemático, ele é “torcedor fanático do Flamengo” e militante de um partido de esquerda, conforme fez questão de registrar em sua homepage na Internet.

Aqui, veneno vira remédio

Um antigo e imponente casarão colonial, adaptado a um campus em franca expansão, abriga o Departamento de pós-graduação em Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. De importância estratégica para um país que possui a quinta maior indústria farmacêutica do mundo, o departamento atrai estudantes e pesquisadores de vários países da América Latina e publica todos os anos uma média de 23 trabalhos em revistas especializadas estrangeiras – um indicador excelente para os padrões nacionais. Entre os dezoito cientistas-pesquisadores, todos com pós-doutorado no exterior, o mais conhecido é o professor Sérgio Henrique Ferreira, autor de uma das maiores proezas da ciência brasileira. Em 1965, Ferreira conseguiu isolar o princípio ativo do veneno da jararaca, uma cobra perigosíssima, e mostrar que uma das proteínas nele contidas era capaz de bloquear a hipertensão nas cobaias usadas em suas experiências. Essa proteína, a bradicinina, havia sido descoberta, anos antes, por um brilhante farmacologista, o professor Maurício Rocha e Silva, ex-diretor do departamento, falecido em 1983. O veneno da jararaca foi, mais tarde, sintetizado em laboratório e virou um remédio para a pressão alta que é vendido nas farmácias do mundo inteiro. O espírito investigativo que tornou possível essa descoberta está incorporado aos métodos de pesquisa no departamento. “Nosso curso não foi projetado para formar professores, mas para mostrar aos futuros pesquisadores a importância de se aprender a pensar,” afirma Ferreira, atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Apetite por descobertas

Em contraste com as instituições limitadas à ciência pura, o curso de pós-graduação em Ciência de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ostenta um trabalho eminentemente voltado para a pesquisa aplicada – a prática. As teses defendidas nos últimos três anos incluem temas como o aproveitamento da carne do jacaré, o suco de melancia, o uso industrial do extrato do urucum (o corante dos índios) e a produção de queijo minas. Entre as descobertas do departamento, destaca-se um novo tipo de açúcar dietético natural, extraído de um microrganismo do solo. Além de não engordar, esse adoçante tem a vantagem de não deixar na boca um gosto residual amargo, como a maioria dos produtos existentes no mercado. Está sendo desenvolvido em parceria com uma empresa privada. O curso faz parte da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA). Tem dezessete professores e recebe uma média anual de 130 alunos de mestrado e doutorado.

Uma usina de ciência

Em Porto Alegre há uma fábrica de produção científica. É a pós-graduação do Instituto de Física, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) onde estudantes e professores trabalham juntos em grupos de pesquisa, rompendo com a divisão rígida de funções que vigora na maioria das instituições acadêmicas. Além da nota máxima da Capes e da biblioteca com 25 000 livros, o instituto publica uma média anual de 120 artigos em revistas especializadas. Numa prova de prestígio, seus pesquisadores ganharam algumas horas anuais de observação no telescópio Hubble, da Nasa, na órbita da Terra. O acesso ao Hubble é uma oportunidade que vale mais do que muitos prêmios.

Estrelas de primeira grandeza

Não é com muita freqüência que algum cientista brasileiro faz uma descoberta de repercussão internacional. O astrônomo Augusto Daminelli, do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo, é autor de uma dessas raras proezas. Com ajuda de um prosaico telescópio, em Itajubá (MG), Daminelli chegou à conclusão de que Eta Carina, o corpo celeste mais luminoso da Via Láctea, era constituída por duas estrelas, e não apenas uma, como se imaginava. Também previu que uma das estrelas eclipsaria a outra – o que de fato aconteceu, em dezembro do ano passado, surpreendendo os demais cientistas que estudavam Eta Carina. Por trás da descoberta de Daminelli, existe o trabalho de um verdadeiro mutirão de cientistas no curso de pós-graduação em Astronomia da USP, um centro de excelência onde se formou boa parte dos 220 astrônomos brasileiros com diploma de doutorado. “O Brasil tem hoje um time de astrônomos de primeira linha”, orgulha-se Sylvio Ferraz Mello, um dos professores do curso, que só aceita dez novos alunos por semestre, todos eles previamente recomendados por um orientador.

Garotos estudiosos e engenhocas mirabolantes

O desafio é difícil até mesmo para engenheiros com muitos anos de experiência: com um kit de setenta itens de material – mangueiras de plástico, parafusos, cabos de aço e até um cabide –, projetar e construir um robô capaz de executar tarefas por controle remoto. Todos os anos, trinta estudantes, de seis países diferentes, dividem-se em equipes mistas para disputar quem consegue produzir a engenhoca mais original e eficiente. É o Robocon, o concurso internacional de design de robôs, que neste ano aconteceu no curso de Mecatrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. A Póli, como é conhecida, participa do evento desde 1993, ao lado de instituições de primeiríssima linha dos Estados Unidos, Japão, França, Alemanha e Coréia do Sul. Em cada equipe havia um brasileiro. Eduardo Kawano, de 18 anos, curitibano, neto de japoneses e aluno do 2º ano da Póli, integrou o time campeão. “Gênio? Aqui na Póli tem gente mais inteligente do que eu”, sorri Eduardo. “Sempre estive entre os primeiros da classe, mas não sou um cara que só vive para estudar. Na Engenharia, o fundamental é a minha aptidão para Matemática e Física e a curiosidade de saber como as máquinas funcionam.”

A Mecatrônica da Póli – criada pela fusão da Mecânica com a Eletrônica e a Computação – é o primeiro curso do gênero no país. Só um em cada 33 candidatos consegue uma vaga, no vestibular. A carga horária chega a 35 horas de aulas por semana no último ano, muito mais do que qualquer outro curso de Engenharia, mas vale a pena. Os formados pela Mecatrônica saem da faculdade preparados para projetar equipamentos tão diferentes quanto robôs submarinos e semáforos “inteligentes”, desses que regulam o tempo de acordo com o fluxo do trânsito.

Se estudar na Mecatrônica já é um privilégio dos mais cobiçados, como será a sensação de ser o melhor entre tantos jovens prodígios? Eduardo Aoun Tannuri, de 21 anos, no 5º ano do curso, é ainda mais do que isso. Ele conseguiu o melhor desempenho acadêmico em mais de 100 anos da Póli: uma média de 9,44, aí computadas todas as suas notas desde o início (para se ter uma idéia, o segundo colocado tem 8,4). O paulistano Tannuri, descendente de libaneses e filho de médicos, estudou inglês desde o primário, lê jornais e revistas e já viajou para o exterior. Em lugar de um emprego numa multinacional, Tannuri pretende seguir a carreira de pesquisador – tanto que já integra os quadros do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). “Ele tem o perfil de um cientista”, disse à SUPER Lucas Moscato, um de seus professores. Mesmo com tantos elogios, Tannuri não se considera um gênio. “Eu simplesmente tenho facilidade para aprender”, afirma. Ele atribui sua trajetória ao exemplo profissional do pai (“meu ídolo”, diz) e ao gosto pelo estudo. “Sempre fui curioso e construí meu cérebro devagar, sem me prender apenas ao que o professor apresenta na aula. Estudar não é só sentar e decorar fórmulas.”

O melhor no país

Dos 1 293 cursos de pós-graduação avaliados em 1998 pela Capes (Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), apenas 23 receberam a nota máxima (7). Esta é a lista das “23 mais”:

• Antropologia Social – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
• Astronomia – Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo (USP)
• Física – Campus de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP)
• Física – Instituto de Física de Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
• Ciência de Alimentos – Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
• Genética – Escola de Agronomia Luís de Queiroz, no campus de Piracicaba da Universidade de São Paulo (USP)
• Fitotecnia (Produção Vegetal) – Universidade Federal de Viçosa (UFV), Minas Gerais
• Biofísica – Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
• Biologia Molecular – Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
• Bioquímica – Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo (USP)
• Farmacologia – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto
• Química Biológica – Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
• Microbiologia e Imunologia – Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
• Educação – Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
• História – Instituto de Estudos Históricos da Universidade Federal Fluminense (UFF)
• História Social – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP)
• Lingüística – Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
• Literatura Brasileira – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP)
• Estatística – Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (USP)
• Matemática – Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro
• Físico-Química – Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), campus de São Carlos
• Sociologia – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP)
• Genética e Melhoramento de Plantas – Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais

Fonte: Revista Superinteressante, Outubro de 1998.

"Li, gostei e achei que seria bom compartilhar. Há muitas sementes de pensamento que podem ser pérolas na hora de uma redação." Prof. EuGênio Nerd.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Nerds invariavelmente gostam de filosofia

Neste tópico, apresento vídeos sobre filosofia que descrevem uma escola filosófica de que eu gosto muito, o existencialismo ateu. De certa forma, apesar de escrever de uma perspectiva teísta, em contraposição à ateísta, ou posso caracterizar mais precisamente a perspectiva do autor deste artigo como cristã bíblica, segundo a definição de Colin Chapman em O Cristianismo no Banco dos Réus, julgo muito importante não abrir mão de entender como a razão penetra e equaciona os mais intrincados dilemas da existência humana pelas mãos dos que pensam a existência a partir da própria existência. 

Estes vídeos apresentam aulas do filósofo Franklin Leopoldo e Silva, da USP, que irão iniciar o leitor de Nerdilândia em dois temas fascinantes, a saber, Fenomenologia e Existencialismo e O Existencialismo de Jean-Paul Sartre. Escolhi começar por esses vídeos uma vez que são temas que poderão ser considerados muito áridos e difíceis para quem não teve iniciação na Filosofia. Franklin procura tornar a terminologia difícil dessa escola filosófica em algo compreensível para quem jamais teve acesso a livros que ensinam filosofia ou, o que seria melhor e um caminho mais excelente, aos livros dos filósofos, que reconheço seria o ideal. Sempre aconselho a quem quer saber qualquer assunto em filosofia, por exemplo, recorrer às obras dos filósofos. É claro que, às vezes, isto demanda muito do leitor, pois, na maioria das vezes, envolve o conhecimento de outra língua. 

Procuraremos nos concentrar no existencialismo ateu de Jean-Paul Sartre (21 de junho de 1905 a 15 de abril de 1980), pois ele nos oferece sua própria construção do existencialismo ateu, num diálogo com os grandes mestres alemães Husserl, Heidegger e Hegel, com os quais interage ora concordando, ora discordando, quase sempre modificando o que eles ensinaram e sempre seguindo seu próprio caminho, seu próprio programa filosófico, construído sobre a base dos pressupostos ontológicos de sua filosofia existencial. Uma característica que deve fascinar um estudante interessado de filosofia será o modo peculiar como esses filósofos usam seus idiomas para transmitir seus pensamentos filosóficos, de modo que se vêem forçados a criar novos termos e expressões que entram na língua como neologismos e moldam literariamente seus escritos com construções geralmente fora do convencional. 

Exatamente por isso que eu disse que o estudante que quer beber nas fontes primárias não terá consigo apenas o desafio de aprender o alemão, no caso de querer ler as obras de Husserl, Heidegger e Hegel na língua original, mas o alemão filosófico desses filósofos. O mesmo se pode dizer do desafio de ler Sartre no francês original, pois o estudante não apenas terá de saber francês, mas se defrontará com o francês literário e filosófico sartreano, que muitas vezes terá termos e expressões que se espelham nos termos e expressões de Husserl, Heidegger e Hegel, como também apresentará termos e expressões franceses originais e peculiares cunhados pelo próprio Sartre para a construção de seu imenso sistema filosófico.

A esta altura, podemos respirar um pouco aliviados porque contamos com traduções para o português de boa parte dessas obras, feitas por profundos conhecedores não só das línguas em que foram escritas as obras desses filósofos, mas também conhecedores profundos de seus pensamentos e programas filosóficos. Temos hoje como acessar quase todas as obras desses filósofos em nossa própria língua. Contudo, para efeito de aprofundamento, jamais poderemos abrir mãos dos manuais de hermenêutica e de exegese desses autores, a fim de podermos compreendê-los corretamente.

Portanto, de um modo bem simples, estes vídeos abrem caminho apresentando uma visão sistemática da Fenomenologia e do Existencialismo e do Existencialismo de Jean-Paul Sartre. Este é o existencialismo ateu, do qual Sartre foi um dos mais coerentes e expressivos representante. Houve uma evolução em seu pensamento, é claro, porque ele, como declarou, pensava enquanto escrevia. Se ele pensava enquanto escrevia, pensava também enquanto lia, enquanto falava, enquanto pensava, enquanto vivia, visto que a trajetória e o contexto vivencial em que escreveu seus livros exerceram toda uma influência em seu pensamento que, forçosamente, se refletiu em suas sucessivas obras. Deste modo, a recuperação do Sitz im Leben (o lugar vivencial) dos escritos sartreanos é fundamental para entender corretamente o que ele quis dizer em seus livros.

Este artigo trata de Fenomenologia e do Existencialismo de Jean-Paul Sartre. Uma boa iniciação para a construção de nossas discussões posteriores. Você irá aprender que o primeiro axioma ontológico do Existencialismo é que a existência precede a essência. Disto então decorre, na forma de um teorema ou  corolário deste princípio, que o homem é um projeto de si mesmo e é um ser em construção.

O existencialismo sartreano afirma que o homem nasce livre e responsável, e que cada momento é definido por suas ações. Ele distingue entre "ser-para-si" (que seria o homem enquanto ser consciente de sua existência e sua liberdade), "ser-em-si" (seres que designamos como animais, natureza, seriam os objetos não conscientes de si mesmos) e "ser-para-os-outros" (seria o homem consciente que se define em relação aos outros). Qual a proposta do existencialismo ateu que a faz atrativa na sua relação de ser-para-os-outros? Parece que muitos que se dizem ateus precisam mesmo é de um curso, no mínimo, de filosofia, a fim de que o seu ser-para-os-outros não se torne um mero e hediondo ser-em-si, mas um ser-para-si que não castre as individualidades dos outros seres-para-si a fim de que possa conseguir autoafirmação. Isto vai contra o próprio sentido existencialista de liberdade.

Aqui você também aprenderá que, para Sartre, o ser-para-si é superior ao ser-em-si e que, ao autoprojetar-se, o ser-para-si se permite sugerir seu projeto individual de construção para os outros seres-para-si, de modo que esta construção se faz sempre com base no e visando ao bem, e não ao mal, dos outros seres-para-si. Portanto, o ser-para-outro, em vez de ser a construção de um projeto arbitrário e irresponsável, torna-se no mais responsável atributo do ser-para-si, a promoção de um projeto existencial que se foque no bem-estar dos outros seres-para-si. Se o Em-si é inferior ao Para-si e o Para-si autoprojeta-se responsavelmente com vistas não apenas ao seu próprio bem-estar, mas no bem estar de todos os demais Para-si, então, diferentemente do que se poderia supor, o existencialismo é um humanismo, pois se concentra no Para-si e em todos os demais Para-outros. 

Deste modo, ao engajar-se na construção de seu projeto existencial, o Para-si tem uma responsabilidade muito maior do que ele poderia imaginar, pois esse projeto abarca a humanidade em sua totalidade! Daí, reafirmamos, o existencialismo ser um humanismo, como bem defendeu Sartre. Agora, quais as implicações disso para a vida prática e quais os dilemas que o existencialismo, seja o ateu, seja o cristão, enfrentam? Que cosmovisões surgem a partir do assumir o prmeiro axioma do existencialismo, de que a existência precede a essência? Como a cosmovisão cristã, cujo primeiro axioma é que a essência precede a existência, pode conciliar-se sem contradição dentro do arcabouço do sistema filosófico existencialista cristão?

Ficam aí estas questões para reflexão. Isto nos sugere a escrita de outros artigos em que tais questões sejam respondidas.

Tenho de destacar, para seu grande mérito, que Sartre era um pensador desconcertante às vezes, haja vista que ele, como sempre asseverou, tinha a capacidade de pensar contra ele mesmo e se desafiar. De certa forma, ele fazia isto porque, praticamente, todos os que o rodeavam com mais proximidade o ouviam mais como discípulos do que como pares, e isto, por certo, geralmente tinha de fazer Sartre pensar contra Sartre.

No final de sua jornada filosófica, apareceu em sua vida um secretário contratado por conta da cegueira que o atingiu em 1973 e que marcou seus últimos anos de vida, até 15 de abril de 1980, que realmente começou a desafiar Sartre. Embora muito jovem, Benny Lévy (Pierre Victor) exerceu um papel crucial nessa fase da vida de Sartre, com destaque as últimas entrevistas de Sartre feitas por Lévy, em que ele admite, por exemplo, ter sido influenciado pelo filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, o que foi, para os sartreanos devotos, um verdadeiro escândalo. Porém, era Sartre pensando contra Sartre. Ele admite nas entrevistas que não gostava de Kierkegaard, pois o mesmo era filósofo existencialista cristão, mas admite que importou algumas categorias filosóficas de Kierkegaard, como o termo desespero, usando-o na acepção kierkegaadiana.

Mais surpreendente ainda foi a ênfase na categoria "esperança" em suas últimas reflexões filosóficas, ainda que admita que o desespero de que fala sobejamente em O Ser e o Nada, e previamente em A Náusea, não deve ser entendido como o antônimo de esperança. É que, ele assevera, termos como desespero e angústia estavam na moda e, então, ele os incluiu em seu programa filosófico apenas como um mero modismo julgando que, se há muitas pessoas falando sobre isto, tais coisas podea representar algo-para-elas. Sartre confessa que jamais soube por si próprio o que desespero e angústia (Angst) viessem representar em sua própria experiência pessoal, razão por quê teve de importar esses termos de Kierkegaard e Heidegger, respectivamente. Só esta franca admissão já foi motivo de escândalo para os amigos da velha guarda. 

O mito do perfeccionismo e da originalidade absoluta de Sartre na cabeça dos sartreanos devotos de Les Tempes Modernes tinha razão para estremecer e sentir-se arranhado, porém um pouco menos do que quando ele confessa, ao admitir francamente seus erros cometidos ao longo de sua já longa trajetória, como o da participação no Partido Comunista que, ele mesmo admite, o iludiu pelo fato de chamar-se o Partido dos Trabalhadores (PT). Ele explica esse erro alegando que o intelectual, como qualquer pessoa, precisa de algo em que se agarrar, então, como muitas outras pessoas, ele cometeu esse grande erro, induzido pela falsa conotação emprestada a esse partido que se mostrou compromissado com o seu próprio programa e não tinha espaço para ser contestado e desafiado, muito menos na falsidade a que se propunha de ser um Partido dos Trabalhadores (PT). Em tempo, Sartre abandonou o falso PC (PT) e o marxismo e prosseguiu seu caminho. Mais um escândalo para os sartreanos, Sartre admitindo que errou muitas vezes. Segundo Sartre entendia a história, o progresso é alcançado num processo que envolve falhas e mais falhas. Procurando decifrar essas falhas e corrigi-las na medida do possível constitui o progresso na concepção sartreana da história. Assim, admitindo-se falível como qualquer outro ser humano, esse pensador jamais procurou nutrir na cabeças das pessoas o mito da perfeição, principalmente na cabeça dos sartreanos que o haviam atestado como morto e congelado em um ponto de sua história, quando se tornara cego em 1973.

Por fim, o Sartre das entrevistas de 1980 e dos escritos desses seus últimos sete anos, deixa claro que construíra um sistema filosófico inacabado, como não poderia ser diferente. Ele mesmo demonstra nessas suas últimas entrevistas, que sua filosofia deveria ser um constante vir-a-ser, vir-a-ser esse que não se consumou, e quiçá jamais se consumaria ainda que ele continuasse escrevendo. O devir, o vir-a-ser que naturalmente deveria ser esperado como marca de seu sistema filosófico não foi fossilizado, por exemplo, em O Ser e o Nada e nem na Crítica da Razão Dialética, muito menos na tentativa de preservação do Sartre estático, ideal e final que foi apresentado postumamente por Simone de Beauvoir em Adieux: Um Adeus a Sartre. Nenhum sartreano, na ocasião da publicação das entrevistas de 1980, Esperança Agora, queria admitir que, nelas, Sartre realmente pensava contra Sartre, trocando, finalmente, o desespero pela esperança, num exemplo a ser seguido por todos nós quando assentamos as bases essenciais para a compreensão de nossa própria existência neste mundo e no estabelecimento de nosso próprio, pessoal e intransferível projeto de vida.

Vamos aos vídeos e voltamos ao tema mais tarde em outros posts.

FENOMENOLOGIA E EXISTENCIALISMO
Franklin Leopoldo e Silva





A FILOSOFIA EXISTENCIALISTA DE SARTRE
Franklin Leopoldo e Silva



Forte abraço e desfrute.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Nerdilândia: Uma atmosfera fraterna para nerds ateus, agnósticos ou teístas fazerem ciência


Ao penetrar no mundo do conhecimento científico como algo apenas reservado aos ateus ou agnósticos, principalmente nos seus níveis mais avançados de pesquisa, descobri que tal pressuposição é um mero equívoco e pode ser considerada inverossímel. Ao longo de meus estudos de filosofia e  história da ciência, descobri o testemunho vivo de inúmeros cientistas do passado que professavam fé em Deus, como Newton e Cantor, e muitos outros contemporâneos como Vern Poythress, meu amigo aqui nos Estados Unidos, doutor em matemática pela Universidade de Harvard, para não ser exaustivo. O fazer científico, as mais das vezes, pode ser construído tranquilamente num ambiente de neutralidade, em vez de ser ligado umbilicalmente ao ateísmo ou agnosticismo de modo obrigatório e forçoso ou a qualquer tipo de teísmo ou crença religiosa. 

Cientistas crentes em Deus, como Georg Cantor e Isaac Newton, avançaram muito em suas pesquisas sem perder a fé. Para Cantor, Deus iluminou sua mente e lhe revelou a Aritmética Transfinita. Segundo ele, o fundamento para a existência dos transfinitos era Deus, o Infinito Absoluto. Qual o estudante de matemática hoje que despreza a Teoria dos Conjuntos ou a Aritmética Transfinita só porque foram desenvolvidas por um matemático crente em Deus? Quais os físicos contemporâneos que não estudam as Leis de Newton e todas as suas contribuições na Física alegando que ele era crente e o produto de suas descobertas era de segunda categoria? Outros cientistas, agnósticos ou ateus, também avançaram em suas pesquisas e deram suas contribuições para o avanço da ciência. Algum estudante crente irá desprezar todo esse legado por conta do agnosticismo ou ateísmo desses cientistas? Podemos classificá-los de superiores ou inferiores por conta da aceitação ou não dos axiomas da existência ou inexistência de Deus? Crentes e ateus podem trabalhar amigavelmente no fazer científico, haja vista a compreensão de que, quando assumem axiomaticamente a existência ou inexistência de Deus, isto não afeta absolutamente seu labor científico. 

Portanto, em Nerdilândia, procuramos admitir esta atmosfera neutra em que se pode falar de ciência sem que se caia obrigatoriamente no ateísmo ou na religião. Aqui também serão respeitados os cientistas que assumem os axiomas da religião. Note-se que isto é bem diferente de quando um matemático desenvolve seus estudos em geometria euclideana ou riemanniana. Nestes casos, o conjunto de pressupostos ou axiomas na base do arcabouço teórico faz enorme diferença nos resultados e na própria concepção de espaço, por exemplo, nessas duas geometrias. No caso em que se assume ou não os axiomas da existência ou inexistência de Deus, é indiferente para o avanço da ciência, a menos quando são feitas paralelamente considerações de cunho metafísico, filosófico ou religioso a partir do estabelecimento de um ou outro desses axiomas.  

Temos de reconhecer que, do mesmo modo que a ciência tem seus axiomas, assim também os tem a religião. Nosso desafio é provar se esses dois sistemas são ou não são necessariamente mutuamente exclusivos. Para a construção do arcabouço teórico da ciência, seja ela Matemática, Física ou Química, por exemplo, são aceitos pressupostos e a existência de várias entidades com seus valores epistêmicos do mesmo modo como os exigem os axiomas de construção da cosmovisão judaico-cristã. 

O conhecimento matemático com suas entidades abstratas com valores epistêmicos específicos é a priori ou a posteriori, usando a terminologia kantiana? Existiria uma terceira margem do rio, como no conto de Guimarães Rosa, na qual poderíamos situar o conhecimento matemático? Se dissermos que é a posteriori, ele depende da experiência. Se dissermos que ele é a priori, ele prescinde da experiência por ser óbvio em si mesmo. As duas definições carregam consigo seus problemas intrínsecos. A primeira consiste de um argumento ontológico que é associado à doutrina da indispensabilidade das entidades matemáticas para as teorias científicas bem sucedidas. Em outras palavras, pressupõe-se que devemos apenas nos comprometer ou conferir direitos ontológicos àquelas entidades que são indispensáveis para a construção das teorias científicas bem sucedidas. Então, há a implicação de que somente as entidades matemáticas que podem ser justificadas de modo empírico, ou seja, a posteriori, devem ter direitos ontológicos. Admitir isto seria conferir o mesmo estatuto epistêmico ao conhecimento científico e ao conhecimento matemático, de modo a podermos pressupor uma passagem fácil do domínio ontológico para o domínio epistêmico. Entretanto, seria isto verdade inquestionável e indisputável?

A segunda consiste num argumento que atribui valor epistêmico diferente ao conhecimento matemático, de que ele é a priori, prescindindo da experiência. Assim, qualquer matemático que teve uma pequena iniciação na filosofia matemática saberá que os objetos matemáticos são produtos de reflexões conceituais independentes de experiência, como ponto, reta, quadrado, operador ou número, todos têm valor epistêmico a priori. Por conseguinte, como poderemos atribuir estatutos epistêmicos diferentes ao conhecimento matemático e ao conhecimento científico sem contradição? Fica aqui o convite para que você navegue seu barco contra a correnteza na busca de uma terceira margem do rio, se é que isto é possível.  Este é um assunto  sobre o qual discorreremos em outra postagem específica.

A Nerdilândia, ao que parece, será um espaço bom para quem aprecia Matemática, Física e Química sem ter de assumir forçosamente qualquer pressuposto do ateísmo ou da religião. O fazer-científico, as mais das vezes, deve ser construído num ambiente de neutralidade em vez de ser ligado umbilicalmente ao ateísmo ou à religião. A postura do ateísmo, surpreendentemente, exige muitas vezes mais fé do que o que seria suficiente para sustentar a tese pressuposicionalista da compatibilidade entre a cosmovisão judaico-cristã com a ciência. Como os matemáticos estão até hoje com fé na verdade da Hipótese do Contínuo e na Conjectura de Goldbach! Do mesmo modo como os matemáticos aceitam suas entidades abstratas sem a menor dificuldade, sejam elas quais forem, quer se tratem de definições, axiomas, lemas, teoremas ou corolários, nenhum deles sintetizados em laboratório, mas apenas como construção produto de reflexão conceitual, assim também os religiosos tem seus axiomas, seus lemas, seus teoremas e corolários construídos num domínio ontológico não muito diferente dos das entidades matemáticas. Tanto cientistas como teólogos tem seus dilemas, com os quais convivem tranquilamente. 

Assim, eu o convido a visitar a Nerdilândia periodicamente e deliciar-se com um modo muito interessante de fazer ciência. Paralelamente ao desenvolvimento da habilidade de resolver problemas, também serão compartilhados muitos aspectos fundacionais para a construção de uma sólida visão de filosofia e história da ciência, centrada em Thomas Khun, como também uma ampla e revolucionária proposta de filosofia da educação, infinitamente distante de Paulo Freire e mais próxima de Olavo de Carvalho e Mahatma Gandhi. Então, por certo Harvard-MIT e IIT estarão em alta na Nerdilândia, como também Putnam. 

Compartilhe, reflita e descubra o lado nerd que há em você. Siga a trajetória do Prof. EuGênio Nerd!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Nerds também gostam de novelas

Aqui seguem duas novelas do tipo que atrai um nerd e o faz ficar extasiado diante da telinha ou da grande tela. Seria muito interessante que esse tipo de abordagem de grandes resultados e  paradoxos da Matemática, ou os das ciências em geral, fossem passados na forma deste tipo nerd  de novela e muitas produções cinematográficas explorassem esse mundo nerd de modo a levar o conhecimento sem dor ao cidadão comum. 

Com base nisto, prossigo escrevendo a obra de ficção Por que Georg Cantor enlouqueceu? Espero que se torne um best-seller e que depois alcance sua versão nos cinemas.

Enquanto isto, assista estas duas novelas nerds e veja se elas despertam alguma reação estética em você, o seu lado nerd.

OS INFINITOS DE CANTOR





O HOTEL DE HILBERT






quinta-feira, 31 de maio de 2012

Bem-vindo à Nerdilândia!



No Dia Internacional do Orgulho Nerd, surgiu a ideia de criar a Nerdilândia - A Terra, o Mundo e o Espaço dos Nerds. De fato, pouca gente sabe o que significa ser Nerd. Ao olhar as definições, percebo que elas são vagas e não incorporam realmente o que significa ser um nerd. Ser nerd é possuir habilidades extraordinárias e capacidade intelectual acima do comum, certo? Bem, todo nerd tem que, no mínimo, ser mais inteligente do que a média das pessoas mais inteligentes. Contudo, isto não disseca nem define a questão do que é ser nerd. Porque a média das pessoas é o que é devido a inúmeros fatores condicionantes. Portanto, a Nerdilândia será um espaço reservado para quem quiser descobrir o seu lado nerd.

Esse tipo de descoberta se assemelha àquela feita pelo professor Xavier ao perceber que ele podia descobrir e contatar os X-Men. De certa forma, a única mutação plausível em Nerdilândia é que sua cabeça vai crescendo, crescendo, crescendo sem limites. Seus horizontes irão ampliando, ampliando, ampliando sem limites. Nada de mutação física, pois sua aparência fica inalterada, mas sua visão se estenderá ao infinito! Então, para descobrir e satisfazer os gostos desses seres tipo X-Men de mutação única, mutação intelectual contínua, que ele chama de X-Nerds, surge não o Professor Xavier, mas o Professor EuGênio Nerd.

Esse Professor EuGênio tem o diferencial não apenas de descobrir quem é nerd, mas de poder explicar o que significa ser um nerd e como tornar-se um. Para ele, todos podem ser nerds, são X-Nerds em potência, lembrando de Aristóteles, mas que precisam de ambiência estimulante para que tornem nerds em ato, ou melhor, num existir efetivo, no dizer de Heidegger ou Tillich. Ele ensina o caminho para se sentir bem em Nerdilândia, nesse mundo seleto que deveria ser de todos, mas que, por conta de injunções sociais que predominam no Estado enquanto construção contemporânea que atropela tudo quanto já foi antes dele e sobre quem ele persiste em dominar e subjugar impiedosamente, não pertence a todos. Por injunções do Estado, segundo o Prof. EuGênio, uma versão corrompida de Nerdilândia está reservada às elites em todas as sociedades contemporâneas.

O Prof. EuGênio, sim, é assim mesmo que se escreve seu nome, antes de tudo, questiona o direito de o Estado ditar as normas na Educação e seu modus operandi. Como insurgente e questionador do estatus quo, prova a tese de que nerds são produzidos quando a família se redescobre com seu papel de ser Nerdilândia, a produtora dos artesões da história e o espaço idealizado adredemente para que a Educação se processe adequadamente. Prof. EuGênio mostra isto com seu filho EuGeninho, que, por opção sábia dos pais, não frequentou escola pública. Mas ele tem histórias para contar das vezes em que tentou assistir aulas em diversas instituições e vai contar.

Quando foi questionado e perseguido pelo conselho tutelar, Prof. EuGênio disparou que o direito e o dever de educar seu filho não cabiam ao Estado, mas à família. Defendeu o sistema de  homeschooling (ensino doméstico) como alternativa  preferencial à imposição medíocre de solapamento da edução do Estado através das escolas públicas. Isso deu uma polêmica dos infernos. Sim, porque diziam que o Prof. EuGênio seria enquadrado na lei que dizia que ele "estaria privando seu filho de acesso aos bens intelectuais", como se a escola pública onde queriam internar EuGeninho fosse o lugar onde ele teria realmente acesso aos "bens intelectuais". Prof. EuGênio manteve EuGeninho fora deste ambiente e, em pouco tempo, ele e a Profa. EuGenilda, sua esposa, fizeram de EuGeninho um nerd com reconhecimento no mundo inteiro.

Para o Prof. EuGênio, a família foi idealizada por Deus para cumprir este papel de educar os filhos e passar os sagrados valores morais que o Estado sequer conhece. Sem dúvida, o Estado visa à produção da educação ao contrário e a demolição das bases para fazer ruir a família tradicional. O Estado é hoje o inimigo da família tradicional. Daí EuGênio e EuGenilda optarem por homeschooling, educação dos filhos no lar, sob a responsabilidade dos pais e não de professores mal preparados e mal pagos das escolas públicas. E eles estão dando conta do recado, mostrando que os políticos que gerenciam o Estado não podem se preocupar devidamente com a Educação por que eles sequer tiveram a preocupação de se educarem a si próprios. Redundância proposital, mas enfatiza a falta de noção de educação que o Estado tem hoje. Apenas o resgate da educação das mães desses políticos demagogos e ignorantes é que pode devolver à educação seu status de excelência que tinha muito antes de o Estado ser sequer uma noção abstrata, como já bem enfatizou o filósofo Olavo de Carvalho.


"O que se deve questionar não é o direito de os pais educarem seus filhos em casa: é o direito de politiqueiros e manipuladores ideológicos interferirem na educação das crianças brasileiras. É o próprio direito de o Estado mandar e desmandar numa instituição que o antecede de milênios e à qual ele deve o seu próprio ingresso na existência. Muito antes de que o Estado moderno aparecesse sequer como concepção abstrata, as escolas para crianças e adolescentes, anexas aos monastérios e catedrais (e nem falo das grandes universidades), já haviam alcançado um nível de perfeição que nunca mais puderam recuperar desde que a educação caiu sob o domínio dos políticos." (Olavo de Carvalho)

Resgatar também o conceito de nerd é uma das propostas do Prof. EuGênio. Como sempre, a sociedade chama de nerd um monte de pessoas que não têm nada de nerd. Outro dia, li que até mesmo uma dupla de pervertidos moralmente ganhou o nobre título de nerd. É um absurdo! Ressemantizaram o sublime conceito de nerd para que ele se perca na poeira do tempo e seja irrecuperável, sim, isto tem sido proposital. Na Nerdilândia, o Prof. EuGênio irá desressemantizar o conceito massificado de nerd e mostrar que ele não é um recluso social, por conta do despreparo para relacionar-se socialmente. Ao contrário, um nerd sente profunda angústia por ver o de que o Estado priva o cidadão comum. Nerdilânda deveria ser o mundo e o espaço de todos, mas, infelizmente, é um raro prazer reservado, por enquanto, a poucos mortais.

Não fique de fora, venha para a Nerdilândia. Compartilhe. Em breve será revelado esse espaço revervado exclusivamente para você. E, para sua surpresa, um nerd não nasce nerd, um nerd é feito. Um nerd é um ser em constante devir, ele vive num contínuo vir-a-ser. Crie-se a ambiência devida e todos poderão se tornar nerds. Esta é a grande verdade que o Estado quer ocultar, devido a suas aspirações perversas e malignas. O Estado é um mostro. Ele cobra compulsoriamente de você e não lhe entrega o que deveria. Você descobre isto e tenta ajudá-lo, fazendo o que ele deveria fazer, como dar educação de qualidade para seu filho, por exemplo, e ele ainda lhe persegue quando deveria agradecê-lo. Bem, vamos discutir isto outra hora.

Como vai começar a aparição da Nerdilândia? Bem, depois de 1000 compartilhamentos, eu comento com detalhes. Sabe onde o Prof. EuGênio Nerd vai lecionar, depois de ter sido exilado do Brasil? Aguardem! 1000 compartilhamentos, OK?

Abraços!